O "ponto cego" da Ciência Política: a ação dos movimentos sociais fora das instituições estatais
- publicabcp
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O artigo "Por dentro e fora do Estado. Reflexões sobre movimentos sociais e participação política no Brasil", de autoria dos pesquisadores Monika Dowbor (UFRGS) e Gustavo M. de Oliveira (IFCS-UFRJ), tem como objetivo principal ampliar o espectro de observação sobre a participação política no país.
O estudo busca evidenciar que a ação dos movimentos sociais não se restringe às instituições estatais participativas, demonstrando que o fazer político também compreende ações que ocorrem fora das interações diretas com o Estado.
A pesquisa aponta que, nas últimas três décadas, a Ciência Política brasileira produziu importantes avanços ao focar na análise de canais institucionalizados, como conselhos e conferências, e no repertório de interação entre os movimentos sociais e a estrutura estatal. No entanto, os autores argumentam que essa concentração analítica gerou um "ponto cego", deixando fora do radar e invisibilizadas diversas práticas políticas e de ação coletiva que se desenvolvem desvinculadas da esfera governamental.
Para analisar essa lacuna, o texto propõe um alargamento conceitual a partir de um diálogo crítico entre a tradição neo-institucionalista, predominante no Brasil, e a vertente autonomista, presente na literatura latino-americana de língua espanhola.
Um ponto central dessa proposta é o rompimento da separação rígida entre política e economia, argumentando que as dinâmicas de reprodução material da vida, de gestão das necessidades e do trabalho, por envolverem processos de deliberação e decisão coletiva, também se configuram como práticas políticas. Com isso, o conceito de ação política passa a abarcar experiências coletivas situadas “para além, contra e apesar do Estado”.
Essas práticas emergem frequentemente nos vazios deixados pelo poder público, ou como respostas concretas à sua omissão, incapacidade e ao racismo estrutural. O estudo ilustra essas dinâmicas por meio de redes de cuidado comunitário, práticas de autogestão econômica e auto-organização, conduzidas sobretudo por grupos populares, indígenas, quilombolas, campesinos e movimentos sociais urbanos ligados à luta por moradia.
Um dos exemplos mencionados é o da rede de cannabis medicinal, na qual atores se organizaram coletivamente para produzir e viabilizar o uso do óleo para tratamento de doenças frente à inação regulatória do Estado.
O artigo conclui destacando a importância de uma agenda que reconheça tanto os processos institucionais quanto as práticas autônomas societárias como dimensões complementares para a compreensão da participação política.
Por fim, os pesquisadores apontam que a observação dessas formas de organização promovidas pelos movimentos sociais pode fornecer novos ângulos de análise e inspirar a formulação de novos instrumentos de políticas públicas, tornando-os mais democráticos e sensíveis às realidades locais no enfrentamento das desigualdades estruturais
Em resumo:
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Sobre os autores
Monika Dowbor é doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (2012), mestre em Sociologia pela USP (2006) e é graduada em Ciências Sociais pela mesma universidade (1999). Professora do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).
Gustavo M. de Oliveira é professor-pesquisador visitante no PPG em Sociologia do IFCS-UFRJ. É Doutor (2021) e mestre (2016) em Ciências Sociais pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais (PPGCS) da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS).
FICHA TÉCNICA
Título: Por dentro e fora do Estado. Reflexões sobre movimentos sociais e participação política no Brasil
Autores: Monika Dowbor e Gustavo M. de Oliveira
Ano de Publicação: 2025
Disponível em: Revista Saúde e Sociedade, v.34, n.3




