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O "ponto cego" da Ciência Política: a ação dos movimentos sociais fora das instituições estatais

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    publicabcp
  • há 5 horas
  • 3 min de leitura

O artigo "Por dentro e fora do Estado. Reflexões sobre movimentos sociais e participação política no Brasil", de autoria dos pesquisadores Monika Dowbor (UFRGS) e Gustavo M. de Oliveira (IFCS-UFRJ), tem como objetivo principal ampliar o espectro de observação sobre a participação política no país. 


O estudo busca evidenciar que a ação dos movimentos sociais não se restringe às instituições estatais participativas, demonstrando que o fazer político também compreende ações que ocorrem fora das interações diretas com o Estado.


A pesquisa aponta que, nas últimas três décadas, a Ciência Política brasileira produziu importantes avanços ao focar na análise de canais institucionalizados, como conselhos e conferências, e no repertório de interação entre os movimentos sociais e a estrutura estatal. No entanto, os autores argumentam que essa concentração analítica gerou um "ponto cego", deixando fora do radar e invisibilizadas diversas práticas políticas e de ação coletiva que se desenvolvem desvinculadas da esfera governamental.


Para analisar essa lacuna, o texto propõe um alargamento conceitual a partir de um diálogo crítico entre a tradição neo-institucionalista, predominante no Brasil, e a vertente autonomista, presente na literatura latino-americana de língua espanhola. 


Um ponto central dessa proposta é o rompimento da separação rígida entre política e economia, argumentando que as dinâmicas de reprodução material da vida, de gestão das necessidades e do trabalho, por envolverem processos de deliberação e decisão coletiva, também se configuram como práticas políticas. Com isso, o conceito de ação política passa a abarcar experiências coletivas situadas “para além, contra e apesar do Estado”.


Essas práticas emergem frequentemente nos vazios deixados pelo poder público, ou como respostas concretas à sua omissão, incapacidade e ao racismo estrutural. O estudo ilustra essas dinâmicas por meio de redes de cuidado comunitário, práticas de autogestão econômica e auto-organização, conduzidas sobretudo por grupos populares, indígenas, quilombolas, campesinos e movimentos sociais urbanos ligados à luta por moradia. 


Um dos exemplos mencionados é o da rede de cannabis medicinal, na qual atores se organizaram coletivamente para produzir e viabilizar o uso do óleo para tratamento de doenças frente à inação regulatória do Estado.


O artigo conclui destacando a importância de uma agenda que reconheça tanto os processos institucionais quanto as práticas autônomas societárias como dimensões complementares para a compreensão da participação política


Por fim, os pesquisadores apontam que a observação dessas formas de organização promovidas pelos movimentos sociais pode fornecer novos ângulos de análise e inspirar a formulação de novos instrumentos de políticas públicas, tornando-os mais democráticos e sensíveis às realidades locais no enfrentamento das desigualdades estruturais


Em resumo:

  • Participação ampliada: A ação política e dos movimentos sociais vai muito além das instituições do governo.


  •  O "ponto cego": A academia focou excessivamente nas interações com o Estado e invisibilizou práticas autônomas e coletivas.


  • Economia é política: O artigo rompe a separação entre essas áreas: gerir a sobrevivência diária (trabalho e arranjos comunitários) exige decisão coletiva e é, portanto, uma prática política.


  • Ação na ausência do Estado: A autogestão frequentemente surge como resposta à omissão, incapacidade ou racismo estrutural do poder público.


  •  Exemplos reais: A autonomia é vista na prática em quilombos, redes de cuidado comunitário e na criação independente de redes de cannabis medicinal frente à inação do governo.


  • Inspiração para o futuro: Reconhecer essas formas criativas de organização ajuda a entender a participação social e pode inspirar políticas públicas mais democráticas.



Sobre os autores


Monika Dowbor é doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (2012), mestre em Sociologia pela USP (2006) e é graduada em Ciências Sociais pela mesma universidade (1999). Professora do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).


Gustavo M. de Oliveira é professor-pesquisador visitante no PPG em Sociologia do IFCS-UFRJ. É Doutor (2021) e mestre (2016) em Ciências Sociais pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais (PPGCS) da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS).



FICHA TÉCNICA

Título: Por dentro e fora do Estado. Reflexões sobre movimentos sociais e participação política no Brasil

Autores: Monika Dowbor e Gustavo M. de Oliveira 

Ano de Publicação: 2025



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