Discursos ambientais do agronegócio não se traduzem em mudança de comportamento legislativo, aponta estudo sobre a Frente Parlamentar da Agropecuária
- publicabcp
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O artigo Green rhetoric, anti-environmental voting: legislative behavior in Brazil's agribusiness caucus, de autoria de Daniela Campello (Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Columbia), Gabriel Madeira (FGV-EBAPE), Beatriz Rey (Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa), Joyce Luz (FGV-SP) e Fabiano Santos (IESP-UERJ), publicado na revista Environmental Politics em 2026, investiga se as pressões internacionais sobre o agronegócio brasileiro alteram o comportamento legislativo da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA).
Os autores investigam se pressões internacionais associadas ao acesso a mercados externos e a cadeias globais de valor alteram o comportamento legislativo de parlamentares ligados à FPA. Para isso, comparam legisladores financiados majoritariamente por empresas agroexportadoras com aqueles financiados por produtores rurais, testando se essas diferentes bases de financiamento geram divergências no comportamento em plenário.
O estudo combina dados de financiamento de campanha da 55ª legislatura (2015-2018), período em que doações corporativas ainda eram legalmente permitidas e identificáveis por candidato, com votações nominais na Câmara dos Deputados. Os parlamentares são classificados conforme a origem predominante de seus recursos de campanha em três categorias: agricultura e pecuária, agroindústria e empresas integradas.
A análise se concentra em seis votações classificadas como ambientalmente relevantes entre as prioridades legislativas da FPA, incluindo temas como transgênicos, áreas protegidas, regularização fundiária na Amazônia e governança ambiental.
Os resultados mostram que, nas seis votações ambientais analisadas, a FPA recomendou posições favoráveis à desregulamentação em todos os casos.
Os parlamentares do bloco votaram de forma altamente coesa nessas matérias, com índices de convergência com a recomendação da FPA entre 85% e 99%, contra taxas bem mais baixas entre não integrantes do bloco (entre 46% e 57%).
Essa coesão se manteve praticamente idêntica entre os diferentes perfis de financiamento: legisladores financiados por empresas integradas, agroindústria ou produtores agropecuários votaram de maneira semelhante, sem diferenças sistemáticas associadas à origem dos recursos.
O estudo mostra ainda que, em 2014, a FPA recebeu cerca de R$ 426 milhões em doações de campanha (46% do total arrecadado por todos os parlamentares), sendo R$ 134 milhões provenientes diretamente do agronegócio, dos quais 53,7% destinados a integrantes da FPA.
Apesar dessa forte dependência de financiamento ligado a firmas exportadoras integradas a cadeias globais, essas mesmas firmas sustentaram um bloco legislativo que votou de forma unânime contra proteções ambientais.
Um estudo de caso sobre a Medida Provisória 759/2016, que tratou da regularização fundiária na Amazônia, ilustra esse padrão: apesar da forte exposição internacional do tema, a proposta foi aprovada rapidamente, com 99% de alinhamento entre os membros da FPA e 98% entre parlamentares governistas, sem qualquer fratura interna relevante no bloco.
A pesquisa conclui que a integração a mercados internacionais reconfigura o discurso público do agronegócio, mas não penetra as coalizões legislativas domésticas. Os autores apontam que esse padrão sugere os limites das pressões de mercado, da reputação internacional e dos compromissos voluntários de empresas como instrumentos de enfrentamento da crise climática, reforçando a importância de fortalecer instituições, regras de transparência e mecanismos de controle democrático capazes de aproximar discurso público, financiamento político e comportamento legislativo.
Em resumo:
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Sobre os autores
Daniela Campello é professora visitante no Instituto de Estudos Latino-Americanos (ILAS) da Universidade Columbia.
Gabriel Madeira é professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (FGV-EBAPE).
Beatriz Rey é pesquisadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.
Joyce Luz é pesquisadora e professora da FGV-SP.
Fabiano Santos é professor titular do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ).
FICHA TÉCNICA
Título: Green rhetoric, anti-environmental voting: legislative behavior in Brazil's agribusiness caucus
Autores: Daniela Campello, Gabriel Madeira, Beatriz Rey, Joyce Luz e Fabiano Santos
Ano de Publicação: 2026
Disponível em: Environmental Politics




