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Eleitorado brasileiro apoia isenção para os mais pobres e alíquotas moderadas para os mais ricos no imposto de renda

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publicabcp
há 6 horas
3 min de leitura

O artigo Isentar os pobres, moderar com os ricos: as preferências tributárias do eleitorado brasileiro, de Eduardo Lazzari e Marta Arretche (USP/CEM), examina como os brasileiros avaliam a progressividade do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) em um país que combina elevada desigualdade, alíquotas nominais progressivas e alíquotas efetivas regressivas no topo da distribuição de renda. Segundo dados citados pelos autores, o 1% mais rico concentrava 27,4% da renda total em 2019, enquanto os 50% mais pobres ficavam com 7,4%.


Além de mapear a estrutura de alíquotas que o eleitorado considera ideal, a pesquisa testa se fatores apontados pela literatura internacional produzem perfis distintos de preferência: renda individual, conhecimento sobre o sistema tributário, identificação partidária e aversão à desigualdade. Diferentemente de estudos que se concentram apenas na alíquota aplicada aos mais ricos, o trabalho analisa o ônus tributário ao longo de toda a escala de renda e investiga o apoio à tributação de forma independente do destino dado à arrecadação.


Os dados vêm de um survey com amostra representativa da população brasileira, com 2.542 entrevistas presenciais realizadas em abril de 2024, estratificadas por macrorregião, sexo, idade, escolaridade e renda. Os entrevistados indicaram a alíquota ideal para uma entre seis faixas de rendimento mensal, de R$ 1.500 a R$ 15.000, e participaram de um experimento conjoint: em três rodadas, escolheram entre dois planos tributários gerados aleatoriamente. A técnica permite inferências causais e reduz vieses de desejabilidade social comuns em temas de alta saliência política.


Os resultados mostram amplo apoio a uma estrutura progressiva. As alíquotas médias consideradas ideais crescem de forma contínua com a renda, de 1,9% para quem ganha R$ 1.500 a 14,6% para rendimentos de R$ 15.000, patamar inferior à alíquota marginal máxima vigente, de 27,5%. 

No experimento, um plano que tributa em 7,5% quem ganha R$ 1.500 tem 19 pontos percentuais a menos de chance de ser escolhido do que outro que isenta essa faixa; com alíquota de 45%, a queda chega a 56 pontos.


Nas faixas superiores, a rejeição diminui, mas alíquotas elevadas continuam sendo recusadas. Tributar em 45% quem ganha R$ 15.000 reduz em 33 pontos percentuais a chance de escolha do plano, enquanto uma alíquota de 15% para essa mesma faixa não difere estatisticamente da isenção. A preferência do eleitorado, portanto, se estabiliza em torno de 15% para os estratos mais altos.


O survey também revela baixo conhecimento sobre o sistema tributário: 48,6% dos entrevistados sabem que o imposto de renda é arrecadado pela União, e apenas 2% identificaram corretamente o nível de governo responsável por cada um dos seis tributos avaliados.


Nenhum dos determinantes testados gerou perfis significativamente diferentes. Eleitores com renda acima ou abaixo de dez salários mínimos, bem ou mal informados sobre tributação, petistas e antipetistas, antipartidários e avessos ou não à desigualdade apresentam, em linhas gerais, a mesma estrutura de preferências.

Os autores apontam duas explicações possíveis: um amplo consenso em torno da progressividade moderada ou a necessidade de identificar outros fatores explicativos e formas mais precisas de mensurá-los.


Na avaliação de Lazzari e Arretche, este é o primeiro estudo a realizar uma análise experimental das preferências sobre tributação progressiva no Brasil. Os resultados informam o debate sobre a viabilidade política de reformas do IRPF, indicando que propostas com alíquotas superiores a 15% para o topo da distribuição tendem a enfrentar resistência eleitoral mesmo em um eleitorado favorável à progressividade. Os autores ressalvam, porém, que, por se tratar de um experimento, os achados não devem ser tomados como preditivos do apoio a propostas que venham a integrar a agenda tributária do país.



Em resumo:

  • O estudo analisa as preferências do eleitorado brasileiro sobre a progressividade do imposto de renda, com survey nacional e experimento conjoint.

  • Há amplo consenso a favor da isenção para os mais pobres e de alíquotas crescentes conforme a renda aumenta.

  • A alíquota considerada ideal para os mais ricos se estabiliza em torno de 15%, abaixo dos 27,5% vigentes.

  • Renda, conhecimento tributário, preferência partidária e aversão à desigualdade não produzem perfis distintos de preferência.

  • Os resultados sugerem que propostas com alíquotas acima de 15% no topo tendem a enfrentar resistência eleitoral.


Sobre o autor


Eduardo Lazzari é doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador do Centro de Estudos da Metrópole (CEM). 


Marta Arretche é professora titular do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole (CEM). 




FICHA TÉCNICA

Título: Isentar os pobres, moderar com os ricos: as preferências tributárias do eleitorado brasileiro

Autores: Eduardo Lazzari; Marta Arretche

Ano de Publicação: 2026



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