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Participação da China em operações de paz da ONU combina responsabilidade internacional e interesses econômicos

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publicabcp
há 12 minutos
3 min de leitura

O artigo Responsibility and Resources: The Political Economy of Chinese Deployment to UN Peacekeeping Operations, de Renan Holanda Montenegro (UFPE), foi publicado na Brazilian Political Science Review. O trabalho foi apresentado no 14º Encontro da ABCP, onde recebeu o prêmio de melhor trabalho da área de Política Internacional. O estudo examina a participação chinesa em operações de paz das Nações Unidas como uma dimensão específica da expansão da presença militar global da China, que ocorre no interior de uma instituição multilateral e sob a bandeira da ONU.


O objetivo é compreender a economia política dessa presença ao contrapor duas explicações recorrentes na literatura. A primeira sustenta que o crescimento das capacidades materiais chinesas levou o país a assumir maiores responsabilidades na provisão de segurança internacional, em linha com a imagem de “potência responsável” presente no discurso oficial de Pequim. A segunda afirma que a expansão de empresas, investimentos e fluxos comerciais chineses pelo mundo criou interesses econômicos a serem protegidos, com destaque para o acesso a matérias-primas e recursos energéticos.


Para testar essas hipóteses, o autor construiu um banco de dados original que cobre a participação chinesa em operações de paz entre 1990 e 2024. O banco reúne 629 observações, mais que o dobro do maior conjunto utilizado em estudos quantitativos anteriores. 


São combinados dados da ONU sobre envio de pessoal, indicadores econômicos do Banco Mundial e informações de comércio internacional da UN Comtrade. A análise emprega estatísticas descritivas, análises bivariadas e nove modelos de regressão.


Os dados descritivos mostram que o continente africano recebeu cerca de 80% de todo o pessoal chinês enviado a operações de paz no período, enquanto a média de todos os países-membros da ONU para a África foi de 68,6%. 

A Missão das Nações Unidas no Sudão do Sul (UNMISS) foi a que mais recebeu contingentes chineses, e o pico de envio ocorreu em 2015, com 3.045 integrantes. O estudo também registra que a China se tornou, ao longo do século XXI, o maior contribuinte de pessoal entre os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança.


Os resultados mostram evidências compatíveis com as duas explicações. O crescimento do PIB chinês está fortemente associado ao aumento da participação em operações de paz (correlação de 0,79): em média, cada aumento de US$ 8 bilhões no PIB da China corresponde ao envio de um integrante adicional. 


Os modelos também indicam que a China tende a enviar mais pessoal a países com PIB menor em relação ao seu, o que o autor interpreta como sinal de que a responsabilidade é um fator relevante na orientação do engajamento chinês.

Ao mesmo tempo, a composição das exportações dos países que recebem as missões ajuda a explicar a distribuição do pessoal chinês. Países em que minérios ocupam maior parcela das exportações tendem a receber maior contribuição chinesa. 


Por outro lado, o volume total de exportações para a China não apresentou relação significativa, e as exportações de recursos energéticos não tiveram o efeito esperado.

Países como Angola, Iraque e Líbia, com exportações concentradas em petróleo, receberam pouco ou nenhum pessoal chinês, o que leva o autor a recomendar cautela diante de explicações que reduzam a atuação da China à busca por recursos.


O estudo conclui que não é necessário escolher entre interpretar a China como “potência responsável” ou como ator orientado exclusivamente por interesses econômicos, já que as duas dimensões coexistem. 

Para o autor, os resultados qualificam o debate sobre as consequências da ascensão chinesa ao mostrar que a expansão da presença militar de uma grande potência também pode ocorrer dentro de mecanismos multilaterais. O artigo aponta ainda caminhos para pesquisas futuras, como estudos sobre missões em que a China não atuou e a incorporação das formas de cooperação em segurança desenvolvidas no continente africano fora do âmbito da ONU.



Em resumo:

  • O artigo analisa a participação da China em operações de paz da ONU entre 1990 e 2024, com base em um banco de dados original de 629 observações.


  • O crescimento do PIB chinês está fortemente associado ao aumento do envio de pessoal às missões.


  • A China tende a enviar mais pessoal a países com menor PIB relativo e com exportações concentradas em minérios.


  • O volume total de exportações para a China e as exportações de petróleo não explicam a distribuição do pessoal chinês.


  • O estudo conclui que responsabilidade internacional e interesses econômicos coexistem na atuação chinesa, que ocorre majoritariamente na África e dentro do sistema multilateral.



Sobre o autor


Renan Holanda Montenegro é professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Membro permanente do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política (PPGCP).





FICHA TÉCNICA

Título: Responsibility and Resources: The Political Economy of Chinese Deployment to UN Peacekeeping Operations

Autor: Renan Holanda Montenegro

Ano de Publicação: 2026


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