Extrema direita reúne 3% dos brasileiros e maioria do eleitorado se orienta pelo desempenho dos governos

O livro Brasil no espelho, do cientista político Felipe Nunes (FGV/Quaest), publicado pela Editora Globo Livros, apresenta os resultados de um amplo levantamento sobre valores, atitudes e percepções dos brasileiros. A pesquisa foi realizada pela Quaest a pedido da Globo e ouviu 9.994 pessoas em todo o país. Lançada em dezembro de 2025, a obra chegou em agosto de 2026 à marca de 85 mil exemplares vendidos.
Com a onda de protestos de 2013 como referência de um período de instabilidade e transformações aceleradas, o autor propõe um "check-up nacional" para identificar quem os brasileiros se tornaram. Segundo Nunes, a intenção não é expor a visão de um autor sobre o país, mas mostrar como os brasileiros, em sua diversidade, se veem e se compreendem, explicando as implicações desses dados para o país e para a democracia.
Os dados foram coletados entre novembro e dezembro de 2023, com entrevistados de mais de 16 anos em 340 municípios das 26 unidades da federação e do Distrito Federal, com cotas de região, estado, sexo, faixa etária, escolaridade e renda. A partir das respostas, o autor constrói um mapa com 37 índices distribuídos em 11 dimensões, como religiosidade, família, meritocracia, confiança e ideologia.
Duas inovações organizam a análise: uma classificação geracional própria para o Brasil, com as gerações Bossa Nova (1945–1964), Ordem e Progresso (1965–1984), Redemocratização (1985–1999) e a Geração.Com (2000–2009); e uma segmentação da população em nove grupos identitários, obtida por meio de clusterização estatística de 197 variáveis.
O retrato que emerge é o de um país conservador nos costumes e estatista na proteção social, desconfiado no cotidiano e exigente com o Estado.
A religiosidade e a família formam um núcleo de longa duração: 86% dos entrevistados afirmam que a fé vale mais que a ciência, e 96% consideram a família a coisa mais importante da vida.
O estudo identifica ainda um punitivismo que não se traduz em armamentismo, já que os brasileiros apoiam penas mais duras, mas rejeitam a facilitação da compra de armas. A confiança interpessoal é baixa, com média de 2,5 em uma escala de 0 a 10, e apenas 6% concordam que é possível confiar na maioria das pessoas.
No campo político, 96% dos brasileiros se posicionam na escala entre esquerda e direita, mas, de acordo com o autor, esses rótulos têm alta saliência e baixa densidade doutrinária: o eleitor combina conservadorismo moral com estatismo e avalia os governos pelo que entregam, o que forma uma espécie de "centro expandido".
A segmentação mostra que os conservadores cristãos compõem o maior grupo (27%), seguidos pela classe DE, dependente do Estado (23%), pelo agro (13%) e pelos progressistas (11%). A extrema direita corresponde a apenas 3% da população, cerca de seis milhões de pessoas, e é o único segmento em que a maioria não defende a democracia como melhor forma de governo. Para Nunes, classificar como extrema direita todo eleitor de Jair Bolsonaro é, nesses termos, tecnicamente equivocado.
A análise geracional indica mudanças em curso. A Geração.Com é a que mais se declara de centro (42%) e também a que reúne o maior contingente de esquerda (26%), o que aponta para uma tendência de brasileiros mais ao centro no futuro.
Os jovens discriminam menos, são mais abertos a arranjos familiares não tradicionais e mais propensos a reconhecer o racismo e a aceitar ações afirmativas, embora convivam com ansiedade, cansaço e precariedade no trabalho. O livro mostra também que os brasileiros superestimam o próprio conhecimento sobre o país, e que os que mais superestimam são os mais propensos a acreditar em notícias falsas.
Ao confrontar os dados com as interpretações clássicas do Brasil, como as de Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre e Roberto DaMatta, o autor busca distinguir o que permanece estrutural e o que se deslocou com as transições demográfica, religiosa e de consumo de informação.
A segmentação proposta é apresentada como ferramenta para políticas públicas e estratégias de comunicação, capaz de substituir a ideia de um "brasileiro médio" por um mosaico de grupos. Nunes defende ainda um compromisso com o diálogo aberto e com a comunicação baseada em evidências e no jornalismo profissional.
Em resumo:
|
|---|
Sobre o autor
Felipe Nunes é cientista político, professor da Escola de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV) e sócio-fundador da Quaest Consultoria e Pesquisa.

FICHA TÉCNICA
Título: Brasil no espelho Autor: Felipe Nunes Editora: Globo Livros ISBN: 978-65-5987-308-1 Ano de Publicação: 2025 Disponível em: Globo Livros




