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Livro analisa duas décadas de transformações no eleitorado e no voto presidencial brasileiro

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publicabcp
há 2 minutos
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Em O país dividido: duas décadas de eleições presidenciais no Brasil (2002-2022), publicado pela Editora Zahar, Jairo Nicolau (FGV CPDOC) examina as seis disputas presidenciais realizadas neste século. O recorte vai da primeira vitória de Lula, em 2002, até seu retorno à Presidência, em 2022. Nesse intervalo, o país passou por mudanças demográficas profundas e a competição política também se transformou: o PSDB, adversário do PT nos segundos turnos de 2002 a 2014, deu lugar a Jair Bolsonaro, que disputou pelo PSL em 2018 e pelo PL em 2022.


A obra se organiza em torno de cinco perguntas: o que mudou no perfil do eleitorado, quem deixa de comparecer às urnas, como as bases sociais do voto no PT e na direita se transformaram, qual é o papel da religião e dos valores morais nas eleições recentes e se as disputas se tornaram mais polarizadas. O autor procura dialogar com a literatura de ciência política, mas escreve para um público mais amplo que o acadêmico. 


A abordagem é descritiva e analítica: o objetivo é mapear padrões consistentes de comportamento eleitoral ao longo do tempo, sem pretensão de demonstrar relações de causa e efeito. As análises se baseiam em dados oficiais do TSE e do IBGE e nas pesquisas do Estudo Eleitoral Brasileiro (Eseb). 


Três escolhas metodológicas orientam a análise: considerar apenas o segundo turno, trabalhar somente com votos válidos e adotar o termo “direita” para designar os adversários do PT. Sobre este último ponto, o autor ressalva que PSDB e Bolsonaro não são forças equivalentes. O livro também emprega modelos estatísticos para isolar o efeito de cada característica dos eleitores e propõe dois novos índices: um de conservadorismo e outro de polarização afetiva.


Os resultados mostram que o eleitorado ficou mais velho, mais feminino e mais escolarizado.

Os eleitores com 60 anos ou mais passaram de 12% para 20% do total. Já a faixa de 16 a 34 anos caiu de 45% para 34%. Em 2022, havia 8,4 milhões de mulheres a mais que homens no eleitorado. A mudança mais marcante é educacional: em 2002, sete em cada dez eleitores tinham baixa escolaridade; em 2022, eram quatro em cada dez. 


O ensino médio completo tornou-se o segmento majoritário a partir de 2018. No comparecimento, o estudo aponta que, mesmo com o voto obrigatório, a participação cresce conforme a escolaridade. Entre os analfabetos, apenas metade vai às urnas, enquanto entre os eleitores com ensino superior o comparecimento se aproxima de 90%. As mulheres comparecem mais que os homens, e os jovens de 18 a 29 anos têm a menor taxa entre os eleitores obrigados a votar. O autor também levanta a hipótese de um “descadastramento silencioso”: 68% dos eleitores excluídos do cadastro em 2025 tinham, no máximo, o ensino fundamental completo.


O livro mostra ainda que as bases sociais do voto, relativamente estáveis entre 2002 e 2014, se reorganizaram a partir de 2018. Naquele ano, surgiu uma diferença de 12 pontos percentuais entre o voto de homens e o de mulheres em Bolsonaro. Em 2022, Lula obteve 58% dos votos femininos, e os dados indicam que as mulheres foram fundamentais para a derrota de Bolsonaro. 


A idade, isoladamente, não diferencia o voto. Entre os jovens, porém, há forte divisão por sexo: as mulheres jovens votaram majoritariamente no PT em todas as eleições, enquanto os homens jovens apoiaram Bolsonaro em 2018 e 2022. O ensino médio, segmento que mais cresceu no período, consolidou-se como principal reduto da direita. 

A análise combinada de sexo, escolaridade e cor/raça indica que a cor/raça se tornou o principal divisor do voto. Mulheres pretas de ensino fundamental deram 80% dos votos a Lula em 2022, o maior nível de coesão eleitoral encontrado nas seis eleições. Já os homens brancos de ensino médio e superior permaneceram como o núcleo mais estável do bolsonarismo, com 59% de apoio ao ex-presidente.


No campo dos valores, o estudo documenta a migração dos evangélicos, que votaram majoritariamente no PT até 2014 e se tornaram um dos pilares de apoio a Bolsonaro.

Segundo o índice de conservadorismo, construído com dados de 2022, o eleitorado se dividia entre 45% de conservadores, 35% de moderados e 20% de progressistas. Dois terços dos evangélicos estavam no polo conservador. O peso dos valores morais, contudo, varia com a escolaridade: entre os menos escolarizados, metade dos conservadores votou em Lula. O livro aponta também limites ao punitivismo. A redução da maioridade penal tem apoio de 72% dos eleitores, mas 57% rejeitam a prisão de mulheres que abortam. 


Quanto à polarização afetiva, a proporção de eleitores polarizados passou de 31% em 2002 para 64% em 2022.

O crescimento ocorreu em duas ondas: à direita em 2018, com Bolsonaro, e à esquerda em 2022, com o retorno de Lula, quando os polarizados à esquerda (36%) superaram pela primeira vez os polarizados à direita (28%).


Segundo o autor, a obra oferece um ponto de partida empiricamente fundamentado para os debates sobre o futuro da democracia brasileira. Nicolau mostra que mudanças demográficas lentas podem ter efeitos políticos rápidos quando combinadas a realinhamentos e à polarização afetiva. Duas questões ficam em aberto. A primeira é saber quanto das novas divisões do voto por sexo, idade e cor/raça depende da presença de Lula e Bolsonaro nas disputas. A segunda diz respeito aos limites da polarização, que, nas palavras do autor, dividiu o país, mas não completamente.



Em resumo:

  • O livro analisa as seis eleições presidenciais de 2002 a 2022 com dados do TSE, do IBGE e do Estudo Eleitoral Brasileiro.


  • O eleitorado envelheceu, tornou-se mais feminino e mais escolarizado: a baixa escolaridade caiu de sete para quatro em cada dez eleitores.


  • Mesmo com voto obrigatório, o comparecimento cresce conforme a escolaridade, e os jovens de 18 a 29 anos votam menos que os demais obrigados.


  • A partir de 2018, sexo, escolaridade e cor/raça passam a dividir o voto, com destaque para a coesão das mulheres pretas em torno do PT.


  • Evangélicos migraram do PT para a direita, e 45% do eleitorado se situa no polo conservador em temas morais.


  • A polarização afetiva dobrou em vinte anos e cresceu em duas ondas: à direita em 2018 e à esquerda em 2022.


Sobre o autor:


Jairo Nicolau é graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com mestrado e doutorado em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Tem como principal filiação o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (FGV CPDOC). Atua na área de Ciência Política, com ênfase em estudos eleitorais e partidos políticos, e desenvolve pesquisas sobre sistema partidário, eleições, Câmara dos Deputados e sistema eleitoral.






FICHA TÉCNICA Título: O país dividido: duas décadas de eleições presidenciais no Brasil (2002-2022)

Autor: Jairo Nicolau

Editora: Zahar

ISBN: 978-65-5979-275-7

Ano de Publicação: 2026

Disponível em: Companhia das Letras

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