Tolerância religiosa no século XVII foi construída com argumentos céticos, teológicos e pragmáticos combinados
- publicabcp
- 11 de jun.
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O artigo Argumentos céticos pela tolerância no início da Modernidade — Bayle e Locke, de Júlio Barroso (Unifesp), foi publicado na revista Política & Sociedade e realiza uma leitura comparada de dois textos fundadores do pensamento moderno sobre liberdade religiosa: a Carta sobre a Tolerância (1689), de John Locke, e o Comentário Filosófico (1686), de Pierre Bayle.
O objetivo do artigo é identificar padrões comuns de argumentação nos dois textos e analisar a estratégia de convencimento adotada por seus autores. Mais especificamente, o estudo busca compreender como Locke e Bayle mobilizaram razões de natureza distinta (teológicas, pragmáticas e céticas) para defender a tolerância religiosa num contexto europeu marcado por guerras confessionais e perseguições, notadamente na França de Luís XIV após a Revogação do Édito de Nantes.
A pesquisa adota abordagem histórica e teórica, combinando interpretação dos textos originais com revisão da literatura especializada sobre os dois autores. O artigo dialoga com intérpretes contemporâneos de Locke e Bayle, contestando em particular a tese de que o tolerantismo lockeano seria essencialmente teológico e orientado por uma estratégia evangelizadora, a chamada "tolerância evangélica".
O estudo mostra que tanto Locke quanto Bayle recorreram simultaneamente a argumentos em tensão recíproca: razões de ordem teológica, que pressupõem alguma verdade religiosa, convivem nos textos com argumentos de natureza cética, que reconhecem os limites do conhecimento humano em matéria de fé.
No caso de Locke, o artigo identifica cinco tipos de argumentos: separacionistas, antipaternalistas, pragmáticos, teológicos e céticos, demonstrando que nenhum deles ocupa sozinho o centro da argumentação.
Bayle, por sua vez, é analisado como figura ainda mais próxima da tradição cética, para quem a própria fragilidade da consciência humana diante da verdade religiosa fundamenta um direito imperativo à liberdade de pensamento.
O artigo defende que essa combinação deliberada de argumentos contraditórios não é inconsistência, mas estratégia retórica.
Ao falar simultaneamente para públicos com diferentes graus e tipos de convicção religiosa (crentes, céticos, pragmáticos) Locke e Bayle revelam consciência do pluralismo moral da sociedade europeia do período.
O estudo qualifica essa estratégia como argumentar in the alternative, expressão do universo jurídico anglo-saxão que designa o uso simultâneo de fundamentos alternativos para sustentar uma mesma posição.
O artigo conclui que o esforço conjunto dos dois autores contribuiu para deslocar o debate sobre tolerância do terreno confessional para o terreno civil e político. Ao recorrer a razões que transcendem comunidades religiosas específicas, Locke e Bayle ajudaram a consolidar uma noção de tolerância civil mais ampla, com potencial de alcançar tanto fiéis quanto não-crentes.
O autor destaca que essa herança intelectual moderna pode ajudar a compreender, como problema moral e prático-político, os fundamentos e os limites da tolerância em sociedades contemporâneas marcadas por profundo desacordo.
Em resumo:
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Sobre o autor
Júlio Barroso é Professor Associado de Teoria Política do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). É formado em Direito pela Universidade de São Paulo, onde também obteve o mestrado e o doutorado em Ciência Política.
FICHA TÉCNICA
Título: Argumentos céticos pela tolerância no início da Modernidade — Bayle e Locke
Autor: Júlio Barroso
Ano de Publicação: 2025
Disponível em: Política & Sociedade, vol. 24




