top of page

Nordeste como centro do sistema internacional moderno: capitalismo racial e economia açucareira em Pernambuco e Salvador

  • Foto do escritor: publicabcp
    publicabcp
  • há 4 dias
  • 3 min de leitura

O artigo A relação entre capitalismo racial e o Atlântico: o papel do Nordeste no sistema internacional moderno, de Erica Paula Vasconcelos (PUC-Rio) e Ramon Blanco (Universidade Federal da Integração Latino-Americana — UNILA), foi publicado na Monções: Revista de Relações Internacionais da UFGD (v. 14, n. 27, 2025). O estudo problematiza o papel do Nordeste brasileiro no sistema internacional moderno, tendo como pano de fundo a relação entre o capitalismo racial e o oceano Atlântico na expansão do comércio de pessoas escravizadas e de açúcar.


O objetivo do artigo é analisar a economia agroexportadora do Nordeste (especificamente em Pernambuco e Salvador) como um sistema econômico operacionalizado pela Europa a partir da chave conceitual do capitalismo racial.

Os autores argumentam que o Nordeste não ocupou uma posição periférica nesse sistema, mas funcionou como centro comercial de sustentação econômica de Inglaterra, França e Portugal. 


O artigo está estruturado em duas seções: a primeira examina o capitalismo racial enquanto sistema econômico e o Atlântico enquanto vetor de construção da modernidade; a segunda analisa o corpo negro como tecnologia industrial nas indústrias açucareiras de Pernambuco e Salvador.


A abordagem é histórica e teórica. O artigo mobiliza autores como Cedric Robinson, Eric Williams, Achille Mbembe, Ruth Gilmore e Oliver Cox para demonstrar a inseparabilidade entre racismo e capitalismo, e articula esse referencial com fontes historiográficas sobre a economia colonial brasileira. 


Os dados da plataforma Slave Voyages, que catalogou cerca de 36 mil viagens de navios negreiros em três séculos e identificou 188 portos de partida no continente africano, com apenas 20 deles correspondendo a 93% do total do tráfico no Atlântico, são mobilizados para dimensionar a escala do sistema.


Os resultados mostram que os corpos negros escravizados foram a base material e tecnológica do capitalismo racial que tornou o Nordeste um dos maiores centros marítimos do sistema internacional moderno. 

Pernambuco foi o ponto inicial de produção e comercialização do açúcar no Brasil, com mais de 77 engenhos controlados entre 1570 e 1608 por colonos de Inglaterra, Portugal e Holanda. 


Salvador consolidou-se como o principal porto internacional de importação e exportação tanto do açúcar quanto da mercadoria humana, formando uma vasta comunidade comercial entre franceses, espanhóis, ingleses, norte-americanos e portugueses.


O artigo aponta que a estrutura econômica da escravidão não foi um resíduo pré-capitalista, mas uma forma de tecnologia colonial que se tornou mundial.

O Atlântico operou como espaço geopolítico que viabilizou o fluxo dos navios negreiros e o abastecimento da Europa, enquanto a racialização dos corpos funcionou como mecanismo de hierarquização e exclusão constitutivo do próprio mercado. 


O açúcar produzido no Nordeste, chamado de "ouro branco", gerou lucros de cem por cento para os colonos e financiou o desenvolvimento industrial e naval europeu, incluindo a arquitetura dos navios negreiros e a expansão das indústrias britânicas.


Os autores concluem que compreender a política internacional exige romper com abordagens estruturadas exclusivamente pelo Ocidente e reconhecer a dimensão da raça nos processos políticos e na formação do sistema-mundo. O artigo reivindica epistemologias não hierarquizantes que reconheçam a centralidade do Nordeste na história global e a continuidade das lógicas do capitalismo racial nas formas contemporâneas de exploração.



Em resumo:

  • O artigo analisa o Nordeste brasileiro, especialmente Pernambuco e Salvador, como centro comercial do sistema internacional moderno, não como periferia.


  • O capitalismo racial é tratado como sistema econômico inseparável do racismo, tendo o Atlântico como vetor de expansão da escravidão e da produção açucareira.


  • Os corpos negros escravizados são analisados como tecnologia industrial que sustentou a economia do açúcar e gerou riquezas para Inglaterra, França e Portugal.


  • Salvador consolidou-se como principal porto de importação e exportação do açúcar e do comércio de pessoas escravizadas, articulando uma vasta rede comercial internacional.


  • O artigo defende a necessidade de epistemologias não hierarquizantes nas Relações Internacionais, capazes de reconhecer a raça como dimensão estruturante da política e da economia globais.



Sobre os autores


Erica Paula Vasconcelos é doutoranda em Relações Internacionais na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (IRI/PUC-Rio). Especialista em Relações Internacionais Contemporâneas e Mestra em Relações Internacionais pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA).


Ramon Blanco é professor de Relações Internacionais da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), onde coordena o Núcleo de Estudos para a Paz (NEP) e a Cátedra de Estudos para a Paz (CEPAZ). 




FICHA TÉCNICA

Título: A relação entre capitalismo racial e o Atlântico: o papel do Nordeste no sistema internacional moderno

Autores: Erica Paula Vasconcelos e Ramon Blanco

Ano de publicação: 2025



Em Destaque

Newsletter

Associado:

Icone rodapé - avião Preto.png

Assine nossa newsletter

  Sua Inscriçãa foi realizada com sucesso!  

Siga nossas redes sociais:

© 2023 por ABCP - Associação Brasileira de Ciência Política, All rights reserved.

bottom of page